Blog do Sérgio Amadeu

Diretoria Rede Livre   22/11/2008

Bauman e a ambivalência: a verdade como relação social de dominação...


Ofereço este trecho do livro Modernidade e Ambivalência, de Zygmunt Bauman, para nossa reflexão:

"A verdade é, em outras palavras, uma relação social (como poder, propriedade ou liberdade): aspecto de uma hierarquia feita de unidades de superioridade e inferioridade; mais precisamente, um aspecto da forma hegemônica de dominação ou de uma pretensão a dominar pela hegemonia. A modernidade foi, desde o início, essa forma e pretensão. A parte do mundo que adotou a civilização moderna como seu princípio estrutural e valor constitucional empenhava-se em dominar o resto do mundo dissolvendo sua alteridade e assimilando o produto de sua dissolução. A alteridade perseverante só podia ser tratado como um aborrecimento temporário, como um erro fadado a ser, cedo ou tarde, superado pela verdade. A batalha da ordem contra o caos nos assuntos mundanos era reproduzida pela guerra da verdade contra o erro no plano da consciência. A ordem fadada a instalar-se e tornar-se universal era uma ordem racional; a verdade fadada a triunfar era a verdade universal (portanto apodítica e obrigatória). Juntos, a ordem política e o conhecimento verdadeiro mesclavam-se num projeto de certeza. O mundo racional e universal da ordem e da verdade não conheceria contingência nem ambivalência. O alvo da certeza e da verdade absoluta era indistinguível do espírito dominador e do projeto de dominação." (245,246)

DEMOSCENE, DEMOPARTIES E A MÚSICA NA COMPUTAÇÃO

Escrevi este artigo que foi publicado na Revista A Rede, n. 42, novembro de 2008

A cibercultura reunificou dois campos que haviam sido completamente afastados pelo processo de divisão do trabalho e especialização capitalistas: a ciência e as artes. A digitalização intensiva dos últimos trinta anos permitiu que alguns grupos sociais que estavam a margem do sistema ganhassem força e iniciassem uma série de experiências de tecno-arte e de fusão da música com a programação computacional. O próprio espírito do hipertexto, das ligações e pontes entre trabalhos diferentes, incentivou as recombinações e fortaleceu a criação de plataformas colaborativas e de remixagens variadas.

Um dos exemplos mais característicos desse movimento é uma subcultura que reune a computação às artes digitais chamada demoscene. O objetivo da demoscene é a produção de sons e imagens a partir da programação computacional gráfica. A enciclopédia colaborativa Wikipedia esclarece que um demo visa "demonstrar capacidade e destreza técnicas em habilidades de programação, artes gráficas e música". Resumidamente podemos dizer que os demos são programas executáveis produzidos em tempo real, reunindo programação e música. Os demos que são similares aos vídeos de música e aos pequenos filmes de animações. Em geral, são desenvolvidos em Demoparties, eventos que reúnem diversos demomakers e demogroups que competem para criarem o melhor demo.

No universo cracker, os demos eram inseridas após a proteção anticópia serem removidas dos programas de computador. Evoluiram de telas de crack (que demonstram o feito no próprio programa violado) com um simples texto para telas com efeitos combinados de sons e animações visuais. Grupos de crackers que assinavam as mensagens introdutórias as suas façanhas passaram a chamá-las de "letter" e depois de "demo". Provavelmente essa é a origem do termo.

Segundo a associação alemã Digitale Kultur (cultura Digital), que busca apoiar as atividades das demosecenes na Alemanha, Demo Parties têm ocorrido principalmente na Europa, em países como Finlândia, Holanda, França, Suécia e Alemanha. Já ocorreram algumas Demo Parties nos Estados Unidos, em Berkeley, San Diego, e também no Canadá. Uma demoparty acontece, em geral, durante três dias, em geral, nos finais de semana, em locais amplos como ginásios e auditórios. Os participantes trazem seus computadores e aparelhos de som. Sem parar um único minuto a música Loud vibra em todo o ambiente, enquanto as equipes de demomakers programam seus demos. Os trabalhos são exibidos, em geral à noite, em um telão a partir de um projetor e de gigantescas caixas de som.

As demoparties surgiram nos anos de 1980, antes da web ser criada e se expandir pelo planeta. As copyparties, eventos de compartilhamento de softwares e games, estão na origem das demoparties. Em algumas dessas reuniões, programadores, hackers demonstravam seu talento transformando as rotinas e algoritmos de determinados programas computacionais em música eletrônica. O grande lance era tirar musicas e efeitos visuais de computadores da família Apple II, Commodore 64, Atari, Amiga e PCs, entre outros. Ainda segundo a Wikipedia, "os grupos neerlandeses 1001 Crew e The Judges, ambos para Commodore 64, são mencionados como os primeiros demogroups. Competindo entre si durante o ano de 1986, criaram demos com músicas e gráficos originais, se aproveitando das capacidades técnicas do computador. Simultaneamente, outros grupos e indivíduos como Antony Crowther (Ratt) passaram a distribuir suas obras por redes como a Compunet do Reino Unido". (http://pt.wikipedia.org/wiki/Demoscene)

Existem vários repositórios de demos. Alguns deles permitem downloads de trabalhos considerados os melhores de uma série de demoparties. Na scene.org (http://www.scene.org/tips.php) é possível acessar inúmeros trabalhos que permitem observar como foi a evolução da demoscene desde 1995. Os mais recentes podem ser baixados pela rede. A ADAN (Association for Digital Arts Development) é uma associação européia, sem fins lucrativos, que mantém um stream de demos para todos os criadores de demoscene chamado de Demoscene TV (http://www.demoscene.tv/). Outra importante midia da comunidade demoscene foi a Rádio Nectarine (http://nectarine.ojuice.net/), que existiu até setembro de 2008, quando foi vítima de ataque devastador nos servidores que a hospedavam. Era uma verdadeira estação demoscene. Nectarine reproduzia músicas demo obtidas de todos os trackers da comunidade e também recebia pedidos de músicas de seus ouvintes.

A comunidade de demoscene é extremamente criativa. Sua característica mais marcante é a capacidade de unir a complexidade técnica das ciências exatas com a sensibilidade artística e o bom gosto estético. Segundo a Demoscene TV, o "espírito de equipe, a mente aberta, a criatividade e o talento permanecem sendo as palavras-chave para definir a atividade demoscene". Vincent Scheib escreveu que os demos "estão prestes a fazer de um computador a coisa mais legal que já se tenha visto, pois eles estão prestes a portar a grande música, a grande arte e a grande programação". Esta é a essência da cibercultura que hoje tem na subcultura demiscene uma das suas mais importantes manifestações.

PARA IR MAIS LONGE:

Um dos textos mais claros e descritivos da história e das tendências atuais da demoscene é Introduction to the Demoscene - hugi (somene em inglês) que pode ser acessado no site: <http://www.scheib.net/play/demos/what/hugi/index.html>

HOJE, BLOGAGEM POLÍTICA PELA LIBERDADE NA REDE


UM RELATO DA FLASHMOB PELA LIBERDADE NA INTERNET CONTRA O SUBSTITUTIVO DO SENADOR AZEREDO


Dia 14 de novembro. Por volta das 17 hs uma chuva intensa caiu sobre a região da Paulista em São Paulo. Estava indo para o metrô Vila Madalena junto com o Pedro Markun e o Leo Germani. Alguém comentou: a flashmob será com guarda-chuva.


Quando saímos do metrô na Av Paulista a chuva havia passado e algumas pessoas já se aglomeravam na escadaria da Gazeta. Obviamente os relógios dos manifestantes que chegavam com o NÃO! grafado em folhas de sulfite indicavam horários diferentes.

Era ou não 18h? O Edney sugeriu que observassemos o relógio do próprio canteiro central da Av. Paulista.

Uma flashmob é uma manifestação instantânea de pequena duração e que se dissipa imediatamente após seu ato cosntitutivo. Assim, fomos para o canteiro central e ficamos por volta de três minutos.

Viramos para a outra calçada e depois...

... fizemos 30 segundos de contagem regressiva para a dispersão.

Pronto! Flashmob realizada. Convocada pelo twitter e por alguns blogs ela mostrou que podemos nos mobilizar presencialmente em defesa da liberdade na Internet.

Mas, o trânsito em São Paulo é infernal. Quando estamos indo embora, chegavam mais pessoas exigindo participar da flashmob que já havia acabado. Pablo Ortellado, Marcelo Marques, André Lemos, deputado Paulo Teixeira, João da Cedesc, pessoal do Serpro vindo da Capela do Socorro, enfim muita gente começou a chegar bem depois das 18 hs.

Bom, como uma manifestação auto-organizada ela resolveu se auto-constituir de novo. A flashmob virou uma refreshmob.

Estas fotos foram enviadas pela Heloisa Rocha do http://www.acessoespecial.com.br/. Eu mesmo não consegui bater quase nenhuma foto.

Mais de cem pessoas participaram das duas mobilizações instantâneas...

A flashmob do dia 14 é um protesto em defesa da liberdade na rede. É um pequeno ato da grande mobilização na rede para derrotar o projeto substitutivo do Senador Azeredo que trata de crimes na Internet. Hoje, dia 15 de novembro, dia da República, também é dia de protesto blogagem política pela liberdade de expressão, privacidade e livre criação e pesquisa na rede mundial de computadores.

FLASH PELA LIBERDADE NA INTERNET

HOJE, SEXTA, DIA 14 DE NOVEMBRO, 18 H, NO CANTEIRO CENTRAL DA AVENIDA PAULISTA EM FRENTE AO PRÉDIO DA GAZETA (ALTURA DO 900), FLASHMOB EM DEFESA DA LIBERDADE DA REDE E CONTRA O PROJETO SUBSTITUTIVO DO SENADOR AZEREDO. TRAGA UMA FOLHA DE SULFITE ESCRITO "NÃO".
A FLASHMOB É UMA MANIFESTAÇÃO INSTANTANEA QUE DURA UM OU DOIS MINUTOS.

Objetivos da Rede Livre

Capacitar Jovens em software livre e as comunidades para portarem suas produções simbólicas na rede mundial de computadores.

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